
A perda da pujança comercial de polos tradicionais como Cidade Alta e Ribeira, o avanço do comércio digital, o alto índice de inadimplência e os impactos sofridos em decorrência de problemas que perpassam a economia global estão entre os principais desafios enfrentados pelo varejo em Natal. Para o presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Natal (CDL Natal), José Lucena, o momento exige adaptação, diálogo com o poder público e um olhar mais estratégico para o comportamento do consumidor. À frente da entidade desde 2020, o empresário defende que a revitalização dos corredores comerciais passa por investimentos em infraestrutura, segurança e mobilidade, além de maior integração entre setor público e iniciativa privada. Em entrevista à TRIBUNA DO NORTE, ele também comenta temas como reforma tributária, concorrência com plataformas internacionais e o futuro das lojas físicas.
Nós acompanhamos nos últimos anos um esvaziamento de polos tradicionais do comércio de rua, como Cidade Alta e Ribeira. Na sua opinião, o que falta para que os planos de revitalização do centro histórico de Natal saiam do papel e o que a CDL tem cobrado da prefeitura para reverter o fechamento de portas nessas regiões?
Falta união de esforços e escuta real de quem empreende e consome nessas regiões. A revitalização passa por investimento público em infraestrutura, segurança, transporte, moradia e incentivos fiscais, além de ações do setor privado para atrair novamente o consumidor. Também é preciso considerar que, após a pandemia, o consumo ficou mais concentrado nos bairros. Outro ponto importante é que o comportamento do consumidor mudou, principalmente após a pandemia: o comércio ficou mais descentralizado, mais próximo dos bairros, e isso precisa ser levado em consideração em qualquer projeto de revitalização. Não adianta apenas requalificar o espaço físico sem pensar em como trazer fluxo de pessoas de volta para essas regiões.
Quais são hoje os principais entraves para o comércio de rua?
Os problemas são antigos e continuam impactando diretamente o dia a dia do lojista. Mobilidade urbana precária, dificuldade de estacionamento, infraestrutura deficiente e, principalmente, a sensação de insegurança são fatores que afastam o consumidor. Muitas vezes, o cliente deixa de frequentar o comércio de rua não pela qualidade dos produtos ou do atendimento, mas pela dificuldade de acesso e pela falta de conforto. Isso pesa muito na decisão de compra, especialmente em um cenário em que ele tem outras opções, como o comércio de bairro ou o próprio ambiente digital. A CDL Natal tem buscado dialogar constantemente com o poder público para mitigar esses problemas. Um exemplo recente é a defesa da implantação de um sistema de estacionamento rotativo, que pode melhorar a circulação e facilitar o acesso. Também estamos propondo a realização de audiências públicas para que empresários, população e gestores construam juntos soluções viáveis.
Como o alto endividamento da população vem impactando o comércio local?
Impacta de forma direta e profunda. Hoje, o Brasil tem dezenas de milhões de consumidores inadimplentes e isso se reflete de maneira muito forte no varejo. No Rio Grande do Norte, o cenário também preocupa, com uma parcela significativa da população enfrentando dificuldades para manter as contas em dia. Quando o consumidor está endividado, ele muda completamente o comportamento, passa a priorizar despesas essenciais, como alimentação, moradia e transporte e reduz ou até elimina gastos com itens considerados não essenciais. Isso atinge diretamente setores como vestuário, eletrodomésticos, serviços e lazer. Além disso, o custo de vida elevado, juros altos e crédito mais caro pressionam ainda mais a renda das famílias. O comércio tenta reagir com promoções, condições facilitadas e campanhas de renegociação de dívidas, muitas vezes em parceria com órgãos de defesa do consumidor, mas isso não resolve o problema estrutural. Para que haja uma recuperação mais consistente, é fundamental avançar em políticas que incentivem a geração de renda, reduzam juros e promovam educação financeira. Sem isso, o consumo continua travado e o crescimento do comércio fica comprometido.
Os conflitos internacionais também têm afetado o comércio local?
Sim, e de forma mais direta do que muitas pessoas imaginam. Mesmo estando distante geograficamente, o comércio local está inserido em uma economia global. Qualquer instabilidade internacional acaba refletindo nos custos. No caso dos conflitos no Oriente Médio, por exemplo, o impacto chega principalmente pelo aumento do frete internacional, da energia e dos insumos industriais. Produtos como aço, alumínio, cobre, plástico, vidro e itens químicos sofrem influência direta, já que dependem de commodities e de cadeias logísticas globais. O lojista sente isso quando recebe mercadorias mais caras dos fornecedores. E aí surge um desafio: como repassar esse aumento ao consumidor sem comprometer as vendas? É um equilíbrio delicado, porque o cliente também está mais cauteloso. Além disso, setores como a construção civil acabam sendo fortemente impactados, o que afeta desde pequenas reformas até grandes obras, influenciando toda a cadeia econômica.
Mas esse aumento de custos sentido pelos empresários está sendo repassado ao consumidor final?
Na prática, é muito difícil não repassar. O preço de um produto ou serviço é formado por diversos fatores, como tributos, custos operacionais, logística, energia, mão de obra e concorrência. Quando esses elementos sobem, o impacto chega inevitavelmente ao consumidor final. Vivemos em uma economia globalizada; quando há instabilidade em mercados internacionais, principalmente envolvendo petróleo, alimentos ou matérias-primas, os custos aumentam em cadeia. Isso atinge a indústria, os distribuidores e, por fim, o varejo. O lojista ainda tenta absorver parte desses aumentos para não perder competitividade, mas existe um limite. Em muitos casos, o repasse acontece de forma gradual, justamente para não afastar o consumidor.
O comércio físico ainda tem espaço diante do e-commerce?
Tem e continua sendo muito relevante, mas precisa se reinventar constantemente. O varejo mudou, e o consumidor também. Hoje, quem conseguiu integrar o físico e o digital está em uma posição muito mais competitiva. Não é hora de resistir ao digital. Isso é suicídio. O consumidor busca praticidade, compara preços online e valoriza conveniência. Isso obrigou o comércio tradicional a investir em tecnologia, redes sociais, delivery e, principalmente, em experiência de compra. Por outro lado, a loja física ainda tem grandes diferenciais, como o contato humano, a confiança, o pós-venda e a possibilidade de ver e levar o produto na hora. Além disso, os espaços físicos passaram a ter também um papel de convivência e socialização. O futuro do varejo está justamente na integração desses dois mundos, oferecendo ao cliente uma experiência completa
Há concorrência desigual com plataformas internacionais?
Sem dúvida, esse é um dos maiores desafios do varejo atualmente. Muitas dessas plataformas operam com estruturas de custo e regimes tributários diferentes dos enfrentados pelos empresários brasileiros. Enquanto o lojista local paga impostos, gera empregos, mantém estrutura física e contribui diretamente para a economia da cidade, essas plataformas muitas vezes não têm o mesmo impacto econômico local. Isso cria um desequilíbrio competitivo. O consumidor, naturalmente, busca preço, mas nem sempre percebe os efeitos dessa escolha no longo prazo, como a redução de empregos e da circulação de renda na economia local.
O Dia Livre de Impostos acontece no dia 28 de maio e é sempre um sucesso de vendas, mas ele também escancara uma crítica do setor produtivo à carga tributária brasileira. Como vai ser a participação das lojas de Natal e do RN nesta ação?
É uma campanha importante de conscientização. Durante o Dia Livre de Impostos, os lojistas vendem produtos sem o valor correspondente à carga tributária, permitindo que o consumidor veja, na prática, o peso dos impostos no preço final. Mais do que uma ação promocional, é um movimento que busca estimular o debate sobre a necessidade de um sistema tributário mais equilibrado e menos burocrático. Neste ano, mais de 200 lojas participam em Natal, incluindo grandes redes e pequenos negócios. A campanha também ajuda a movimentar o comércio e fortalecer o relacionamento com os clientes.
O fim da chamada “taxa das blusinhas” preocupa o setor?
Preocupa, porque pode ampliar ainda mais a desigualdade competitiva. Sem um equilíbrio nas regras, o consumo tende a migrar para plataformas internacionais, reduzindo a circulação de recursos dentro da economia local. Isso impacta diretamente o comércio, mas também toda a cadeia produtiva, incluindo serviços, logística e geração de empregos. O varejo é um dos setores que mais emprega, especialmente por meio das pequenas e médias empresas.
Para o comércio local, o que muda com o possível fim da escala 6x1?
É um tema que precisa ser tratado com muito equilíbrio. O comércio e os serviços têm uma dinâmica própria, funcionando justamente nos horários em que as pessoas estão disponíveis para consumir, como noites, finais de semana e feriados. Uma mudança sem planejamento pode aumentar custos operacionais e afetar a geração de empregos, especialmente entre pequenos empresários. Por outro lado, também é importante considerar a qualidade de vida dos trabalhadores. Por isso, defendemos que qualquer alteração seja amplamente debatida, buscando soluções que conciliem os interesses de trabalhadores e empresas.
Uma reclamação histórica dos empresários é que o RN perde em competitividade para estados vizinhos, como a Paraíba e o Ceará. Isso ainda acontece?
Sim, essa ainda é uma realidade. Estados como Ceará e Paraíba avançaram mais em políticas de incentivo, desburocratização e infraestrutura, o que os torna mais atrativos para investimentos. O empresário avalia vários fatores antes de investir, como carga tributária, segurança jurídica, logística e agilidade nos processos. Quando um estado oferece melhores condições, ele naturalmente atrai mais negócios. O Rio Grande do Norte tem potencial, mas precisa avançar na criação de um ambiente mais favorável para quem empreende.
Quais são os desafios da reforma tributária para os empresários?
Apesar de necessária, a reforma ainda gera muitas dúvidas na prática. O empresário quer entender como ficará a carga tributária do seu setor, qual será o impacto nos preços e como adaptar seus sistemas e processos. Além disso, haverá custos com atualização tecnológica, capacitação de equipes e ajustes na contabilidade. No comércio e nos serviços, a preocupação é maior, porque são setores muito sensíveis à tributação. Dependendo da regulamentação, pode haver aumento de carga, o que impacta diretamente a competitividade e a geração de empregos.
QUEM
José Cordeiro de Lucena Neto é empresário do setor de materiais de construção e presidente da CDL Natal. Ele integra a terceira geração à frente da Comjol, empresa tradicional do varejo potiguar fundada na década de 1930. Também atua como conselheiro do Sebrae-RN e está à frente da CDL desde 2020, com mandato previsto
até 2029.
25 de maio de 2026